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Nelson Rodrigues - A menina sem estrela

Já disse e aqui repito: — o episódio da véspera é tão passado, e passado tão 

defunto como a vacina obrigatória. Faço esta ressalva para incluir, nestas Memórias, o 

meu almoço de ontem com o Otto Lara Resende. Tudo aconteceu, ali, num 

restaurante amigo da rua Santa Clara. Éramos cinco: — o Otto, eu, meu filho Joffre, 

o Hélio Pellegrino e o Vinícius de Moraes. 

O almoço foi uma página de Os Maias. Não era um Otto qualquer que estava 

diante de nós, mas um Otto recém-chegado. E aquele que chega é sempre um ser 

comovido e transcendente. Vinha ele da fabulosa Escandinávia; andara no pólo, 

vejam vocês, no pólo; passara três ou quatro dias em Paris (não falemos de Paris, 

que é um lugar-comum irrespirável). 

Como o Otto vivera uma experiência polar, nós o reconhecemos como se 

fosse um Byrd, um Amundsen. Se ele saltasse de um trenó, puxado por uma dúzia 

de caninos brancos, não me admiraria nada. E coincidiu a chegada do Otto com a 

passagem de uma mulata grávida. Improvisou-se uma relação cinematográfica entre 

as duas imagens: de um lado, a mulata com os flancos plenos, saturados de vida 

fecunda; de outro lado, o escritor, prenhe também de experiências, descobertas, 

espantos, visões. Houve um momento em que me veio a tentação fatal de 

perguntar-lhe: — “O pólo existe mesmo?”.

Vocês se lembram dos Sertões, quando Euclides diz que o sertanejo é, antes de 

tudo, um forte. Foi mais ou menos assim, com esse tom euclidiano, que o Otto 

declarou o seguinte: — “O norueguês é um bobo”. Mas não vejam, aí, nenhuma 

intenção restritiva. Em absoluto. O que ele quis dizer, se bem o entendi, é que falta 

ao norueguês a luminosidade da molecagem brasileira. Por toda a Escandinávia, não ouviu ele uma única e escassa piada. E como pode um povo viver, e sobreviver, sem 

piada? 

Otto desembarcara em Olso e quinze minutos depois, não mais, já bocejava 

num tédio de Negro de Cecil B. de Mille. Durante os dias que lá permaneceu, não 

foi olhado por ninguém, jamais. O brasileiro tem por tudo um entusiasmo visual que 

não existe na Escandinávia. Lá as pessoas olham pouco. E, por vezes, o Otto perdia 

a noção da própria identidade. Na emergência, puxava  a carteirinha do Félix

Pacheco, via a própria cara e repassava o próprio nome. E, então, certo de que 

continuava sendo Otto Lara Resende, de São João del Rey, suspirava: — “Ainda, 

bem, ainda bem”. 

Mas o Otto que partiu era um e o Otto que voltou é outro. Na sua viagem, 

aprendeu esta coisa estarrecedora: — “O desenvolvimento não é solução”. Ao sair 

do Brasil, era um paladino do desenvolvimento, disposto a atirar o seu dardo contra 

a soldadesca inimiga. Mas salta na Noruega, o país mais desenvolvido do mundo, e 

percebe todo o seu equívoco funesto. Imaginem que entra numa fábrica. Ele e seus 

companheiros são conduzidos por um funcionário norueguês, que é um bobo 

integral, de uma polidez hedionda. Cada operário, ali, tinha um automóvel. Era de 

uma espessa, inconsolável tristeza. 

Sem ser olhado por ninguém (nenhum operário lhe concedeu a graça de um 

olhar), o Otto foi varado por uma certeza inapelável: — o desenvolvimento 

humaniza a máquina e maquiniza o homem. O escritor patrício teve vontade de 

conversar com as máquinas e de lubrificar as pessoas. E baixou-lhe uma náusea total 

das novas técnicas. Viu uma máquina de fazer embrulhos que o deslumbrou. Visitou 

outras fábricas. Em todas, o mesmo operário inverossímil. Não havia a menor 

dúvida: — na Escandinávia as máquinas são mais tratáveis, mais sensíveis, mais 

inteligentes, de uma sociabilidade muito mais fina do que as pessoas. 

E ele, só pensando na volta, continuou somando dados sobre o 

desenvolvimento. Outra descoberta: — não há mulher bonita no país desenvolvido. 

Pode parecer mentira: — não há. E o Otto explica:— a beleza tem de ser uma 

exceção. A partir do momento em que todos são bonitos, ninguém é bonito. A 

norueguesa é sempre igual à outra norueguesa. Os noruegueses são parecidos entre 

si como soldadinhos de chumbo. E olhando para todos os lados, e não vendo um único bucho, o Otto começou a sentir um absurdo tédio visual. 

Como se não bastasse a padronização de caras, corpos, costumes, usos, idéias, 

valores, há também a estandardização da paisagem. Tudo prodigiosamente igual. 

Aquele que viu uma paisagem norueguesa pode ir tratar da vida, porque já conhece 

todas as outras paisagens. É trágica a falta de imaginação da paisagem no país 

desenvolvido.

E há tanta ordem, tanto asseio, tanta disciplina, tanta organização de vida, que 

o Otto compreendeu por que o escandinavo se mata. Ao  apertar a mão de um 

norueguês tinha vontade de perguntar-lhe: — “Quando é o suicídio?”. Quanto a 

amar, o que se vê é um amor sem mistério, suspense, angústia e abraços sem um 

mínimo de morbidez. Ora, sem um mínimo de morbidez, ninguém consegue gostar 

de ninguém. O amor ou é puro desejo ou, menos do que isso, a posse sem desejo. 

Em plena Oslo, o Otto experimentou uma dilacerada nostalgia do 

subdesenvolvimento brasileiro. Revirava-se, insone, na cama, pensando no Ponto de 

100 Réis, nos oitis do Boulevard (não há mais oitis no Boulevard, mas ele queria vê-

los assim mesmo). 

Tinha saudade até dos gatos vadios do Campo de Santana. Ainda por cima, 

estava gripado. Só o brasileiro tem a desfaçatez de ir ao pólo gripado. 

Finalmente, tomou o avião de volta. Desceu em Paris  e achou Paris 

abominável. Passou, lá, uma tarde inteira, fazendo a seguinte e desesperadora 

constatação: — todo mundo usava o mesmo sapato. Fosse como fosse, descobrira 

que o desenvolvimento é burro. Ao passo que o subdesenvolvimento pode tentar 

um livre, desesperado, exclusivo projeto de vida. O desenvolvido para se realizar 

tem que ser o suicida. 

O Otto desembarca aqui, finalmente. Entre parênteses, devo dizer que não 

incluí o seu nome na lista dos meus amigos. Mas ele o é. Por ressentimento eu oexcluí. Mas é, repito, meu amigo. E como ia dizendo: — o Otto salta e cruza com 

um vago conhecido. O sujeito abre-lhe os braços, num berro: — “Otto, meu 

amor!”. Foi um abraço tremendo, de meia hora. Nem era conhecido, ou por outra: 

— o sujeito só o conhecia de televisão. O recém-chegado viu, nessa cordialidade 

ululante, o Brasil. Np país desenvolvido, tal efusão seria considerada deslavada 

pederastia. Almoçando na rua Santa Clara, o meu amigo contou-me essas e outras passagens que não posso referir. Eis o vaticínio do Otto: — as máquinas 

norueguesas, de tão humanizadas, acabarão dando bananas em todas as direções.

  • 3 months ago
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  • 3 months ago
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(via southcoastslum)

Source: topherchris

  • 3 months ago > topherchris
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Morning Night

  • 3 months ago
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bbglasses:

Want to prime your estimating skills?

How to solve the question,
How many M&Ms are in the jar?

I know that question comes up all the time for you.

  • 3 months ago > bbglasses
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centuriespast:

A Bather (Echo)
Jean-Jacques Henner (French, Bernwiller 1829–1905 Paris)
Date: 1881
The Metropolitan Museum of Art
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A Bather (Echo)

Jean-Jacques Henner (French, Bernwiller 1829–1905 Paris)

Date: 1881

The Metropolitan Museum of Art

  • 3 months ago > centuriespast
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2 - 24/01/2013 - Empire - Gore Vidal,

  • 3 months ago
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(via wilwheaton)

Source: patcutieboy

  • 4 months ago > patcutieboy
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1 - 14/01/2013 - Brideshead Revisited, The Sacred & Profane Memories of Captain Charles Ryder - Evelyn Waugh,

  • 4 months ago
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